"...tempo, tempo, tempo, mano velho..."

"...fique comigo, seja legal, conto contigo pela madrugada ..."

Tuesday, March 15, 2005

Policiais brasileiros em Cuba

RUY FAUSTO
ESPECIAL PARA A FOLHA
A notícia de que o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), delegado Mauro Marcelo, esteve em Cuba em visita oficial, para consolidar o programa de aproximação e intercâmbio entre a Abin e a DGI (Dirección General de Inteligencia), o serviço secreto cubano, é mais uma pérola do lado sombrio da política externa do atual governo brasileiro.

O fato escandaliza, como escandalizou, por exemplo, a declaração do então recém-nomeado embaixador brasileiro em Cuba de que as execuções de pessoas que haviam tentado abandonar a ilha (sem ter ferido ninguém) era assunto interno do governo cubano...
Escrevo como cidadão brasileiro, preocupado com o futuro do país, mas também como homem de esquerda e -até segunda ordem- eleitor do PT. As simpatias do governo por tudo o que existe de mais abominável em matéria de despotismos "progressistas" são uma ameaça para o bom nome do país e um verdadeiro desastre para a esquerda (não sei de quem partiu a idéia do "programa de intercâmbio", mas, provavelmente, o ministro José Dirceu o vê com muita simpatia, ele cujo encantamento pelo poder castrista já era bem conhecido- mas de modo algum unanimemente compartilhado- pelos brasileiros refugiados em Cuba).
Perturbador é constatar como são poucas as vozes de esquerda que protestam contra tais desatinos. Por ocasião das execuções em Cuba, dos que tentavam a única alternativa racional de quem não se dispõe a resistir de dentro a um totalitarismo: sair do país, somente Fernando Gabeira, na Câmara dos Deputados, e o senador Jefferson Peres (PDT) tiveram a coragem e a lucidez de se pronunciar. Gabeira se manifestou de novo, agora, e, além dele, outros deputados, mas nenhum destes, pelo que se noticiou, é de esquerda (o que não significa que essas intervenções não tenham sido bem-vindas).
O deputado Fernando Gabeira estranhou que policiais brasileiros fossem estagiar junto a uma polícia cuja especialidade é caçar democratas... De minha parte, gostaria de lembrar alguns fatos pouco conhecidos que podem iluminar a questão e, se houver espaço, retomar algumas considerações mais gerais.
Carlos Franqui que dirigira a Rádio Rebelde, na Sierra, e o jornal Revolución, e que depois rompeu com o regime, dá alguns detalhes sobre o que aconteceu por ocasião da visita de Fidel Castro ao Chile, no período inicial do governo socialista de Allende.
Castro deveria passar dez dias no Chile, mas passou 25, o que criou problemas para o presidente. Um dos integrantes da segurança de Castro "se apaixonou" por uma das filhas de Allende, com quem acabou se casando. Sempre segundo Franqui, o namoro fora encomendado por Castro e o anúncio do "final do trabalho político" com a mulher, anúncio feito anos mais tarde pelo próprio marido, em Cuba, teria sido a razão do suicídio dela.
O que nos interessa mais de perto aqui: Castro teria pedido a Allende que concedesse a nacionalidade chilena ao "noivo" e, mais do que isto, que o nomeasse para um cargo de direção na polícia chilena. Allende se recusou a aceitar as sugestões de Fidel Castro, o que provocou uma crise entre os dois (Franqui transcreve o registro da última conversa entre Castro e Allende).
Essa história é canônica porque mostra: 1) com que sede Castro tenta controlar e engolir os governos democráticos de esquerda; e 2) como, nesse trabalho, a penetração nos "serviços de informação" tem, e por razões óbvias, um papel essencial. A propósito, em outra passagem, Franqui escreve que Castro costumava lamentar que Cuba fosse um país pequeno, e que não fosse o Brasil.
Com isso, não estou afirmando que haja um perigo imediato e efetivo de dominação castrista no Brasil. Felizmente para o país e para a esquerda, o castrismo está no poente; ele dificilmente sobrevirá à morte do "grande líder" (aliás, creio que é por isso mesmo que os lobbies castristas se mostram tão ativos). Mas ele ainda poderá criar muita confusão e fazer bastante mal, principalmente se a opinião de esquerda continuar tão confusa.
Como rendem, em termos de propaganda do regime, os pretensos milagres castristas em matéria de saúde e educação! Retomo, com brevidade, considerações que fiz em outros lugares (ver artigo em suplemento do Correio Braziliense, de março de 2003, atualmente in Google; e tribuna no jornal eletrônico dos 25 anos do PT). Sobre a situação da saúde e da educação em Cuba (mas há que acrescentar também a alimentação, habitação, e, not least, as liberdades cívicas), é preciso dizer, essencialmente:
1) É falso supor, como assegura a ideologia do regime, que Castro partiu de uma situação de hiperatraso. País "em desenvolvimento", é verdade, com muita disparidade regional, e onde havia muita corrupção e violência (o jovem Castro foi, aliás, um dos campeões do bangue-bangue "político"), Cuba, em 1959, estava, entretanto, o que é mal conhecido, entre os países latino-americanos que tinham o maior PIB per capita e os melhores índices em matéria de saúde (incluindo mortalidade infantil), seguridade social e educação.
2) Sabe-se que os despotismos burocráticos "comunistas" sempre tiveram, em maior ou menor medida, um lado "igualitarista" e assistencial. Mas o que pode ter havido, em Cuba, de igualitarismo econômico (nunca de igualdade de poder) e de eficiência, no plano da saúde, ou, em forma muito ambígua, no plano da educação -o que, bem entendido, de modo algum justifica um regime totalitário-, perdeu-se quase inteiramente. E isto não por causa do embargo (condenável), cujos efeitos são pouco relevantes.
Em contraposição à grande desigualdade reinante, aos privilégios da nomenclatura, à prostituição, à desnutrição, às péssimas condições de habitação -e à asfixia das liberdades fundamentais- resta pouca coisa mais do que a demagogia dos recordes em tal ou qual índice, ou setor, de preferência de ponta, ou nos esportes, para efeito-vitrine (exemplo das conseqüências perversas e dos impasses a que conduzem os erros e a política demagógica do regime: pede-se às mulheres grávidas não redistribuir as porções alimentares extras que lhes são concedidas -preocupação efetiva com a saúde dos nascituros ou medo de que essa redistribuição possa ameaçar certos recordes?
De qualquer forma, é normal que elas redistribuam -se houver o que redistribuir- elevando um pouco (no interior da família ou fora dela) o volume miserável de calorias a que está condenada a imensa maioria da população cubana).
3) Se compararmos os resultados de Cuba, por exemplo, com um país como a Costa Rica (comparação feita por um economista cubano no exílio), ver-se-á que, nos anos 90, na Costa Rica, país pobre -e onde não se fuzilou, não se fecharam portas, nem se atentou contra os direitos do homem-, os índices de alimentação-habitação-saúde-eduçação são, no conjunto, bem superiores aos de Cuba. Porém o regime costarriquenho, que aliás ajudou bastante a revolução cubana (o que não impediu que Castro logo se indispusesse com ele), tinha o defeito de ser mais ou menos social-democrata -em sentido rigoroso- e, nesse sentido, evidentemente não ofereceu nem oferece interesse para a nossa esquerda nem para a nossa diplomacia.
Falei em outro lugar sobre a proibição, em Cuba, do uso internacional da internet, sobre o número de execuções (a acrescentar o número total, enorme, das pessoas que foram presas desde 1959); gostaria de lembrar agora que mais de 10% da população cubana abandonou a ilha. É como se houvesse mais ou menos 20 milhões de brasileiros no exílio...
Os exilados cubanos seriam todos burgueses contra-revolucionários? Que o leitor reflita -para citar um exemplo que é mais do que um exemplo- sobre o destino de Hubert Matos, o professsor-comandante da Sierra, hoje fora de Cuba, que cumpriu 20 anos de prisão, porque era contrário à transformação da revolução democrática em contra-revolução, pois é isso, marxista-leninista.
Precisamos de um pouco mais de lucidez e de espírito crítico diante de certo tipo de objeto. Uma verdade elementar e que abre o caminho da dialética (já que se gosta tanto de falar desta) é a de que, contrariamente ao que diz certo formalismo simplista, os inimigos dos nossos inimigos não são necessariamente nossos amigos (o que equivale, mais ou menos, a afirmar: no interior dos preceitos da melhor política crítica, não vale o princípio do "terceiro excluído"). O capitalismo não será derrotado se não aprendermos a "varrer à nossa porta".

Ruy Fausto, 70, é professor emérito de filosofia da USP e leciona na Universidade de Paris 8. É autor de "Marx-Lógica e Política" (ed. 34) e "Dialética Marxista, Dialética Hegeliana" (ed. Paz e Terra).

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